Fundamentação Teórica do PROMAB

O PROMAB tem como foco o uso da microbacia hidrográfica experimental para a avaliação dos efeitos do manejo florestal sobre os recursos hídricos, em termos do balanço hídrico da microbacia, de variáveis físicas e químicas da água do riacho e do regime de vazão. Desta forma, a premissa básica é a de que a alteração nestes componentes hidrológicos da microbacia pode ser vista como indicador adequado para o monitoramento,de longo prazo, da sustentabilidade ambiental do manejo. Tendo em vista que a microbacia hidrográfica é a unidade ecossistêmica da paisagem, outra premissa igualmente importante é a de que o manejo florestal que esteja em sintonia com a preservação desses atributos hidrológicos é sinônimo de manejo ecossistêmico.

O uso de microbacias hidrográficas como unidade básica de planejamento do manejo e como método experimental de avaliação da qualidade ambiental das práticas de manejo florestal já é consagrado em vários países do mundo, tendo os trabalhos pioneiros desta metodologia se iniciado por volta de 1850 na França (ANDRÉASSIAN, 2004). A partir de então, centenas de outras microbacias experimentais foram estabelecidas no mundo todo, permitindo a obtenção de resultados experimentais e o esclarecimento de princípios hidrológicos fundamentais, culminando com o surgimento da ciência Hidrologia Florestal, como ramo da Hidrologia que trata das relações entre a floresta e a água na natureza. Esta ciência mostra hoje claramente que as atividades de uso da terra podem ser tanto benéficas como deletérias aos recursos hídricos, constatação essa que sem dúvida continua como preocupação permanente na busca do uso sustentável dos recursos naturais (DeFRIES e ESHLEMAN, 2004). Permitiu, também, o esclarecimento de um processo hidrológico de fundamental importância para a conservação da água e a manutenção da estabilidade hidrológica da microbacia, que é o processo de geração do escoamento direto produzido por uma chuva, cujo desdobramento principal é o conhecimento que hoje se tem a respeito das áreas ripárias, das relações ripárias e, no conjunto, do conceito do ecossistema ripário. Na busca do manejo florestal sustentável este conceito é muito mais eficaz, abrangente e consistente do que os limites arbitrários e a simetria ecologicamente inconsistente das chamadas Áreas de Preservação Permanente.

Obviamente o uso de microbacias para o monitoramento, além de requerer os necessários cuidados metodológicos, em termos de delineamento experimental, instalação e manutenção, necessita também, do estabelecimento de hipóteses norteadoras para o programa. Além disso, os resultados nelas obtidos refletem de forma sistêmica a relação de causa e efeito entre as ações de manejo e os efeitos hidrológicos. Ou seja, se não houver medições mais detalhadas dos processos hidrológicos internos da microbacia experimental, fica muito difícil a extrapolação quantitativa de seus resultados, pois cada microbacia é diferente das demais.

No que diz respeito aos cuidados metodológicos, além dos critérios hidráulicos e hidrológicos da construção das estruturas de medição da vazão (Figura 1), há que se levar em conta que o delineamento experimental ideal envolve o uso de duas microbacias adjacentes ou vizinhas, referidas como “microbacias pareadas”. Deste conjunto, uma delas é a microbacia experimental propriamente dita, ou de manejo, enquanto que a outra funciona como testemunha ou referência. Quando a microbacia testemunha encontra-se coberta com floresta natural não perturbada, condição esta que normalmente concorre para a manutenção da estabilidade hidrológica da microbacia, então a comparação de seu comportamento com os resultados obtidos na microbacia de manejo permite inferir, estatisticamente, sobre a intensidade e a direção (degradação ou estabilidade) dos efeitos das práticas de manejo florestal.

Desde que atendidas estas premissas metodológicas, uma das mais significativas contribuições práticasde manejo que o método permite diz respeito ao monitoramento de estudos que visem avaliar prescrições teóricas de manejo. Desta forma, os efeitos hidrológicos poderão ser relacionados com as causas cuidadosamente delineadas, proporcionando assim uma base sólida para a modelagem processual e a extrapolação dos resultados.

Fundamentação
Figura 1
. Ilustração de uma estação linimétrica de uma microbacia experimental.
(foto: Sergio Adão Filipaki, Klabin, PR).

A partir das mudanças e dos novos paradigmas de manejo que se iniciaram na década de 1980, culminando com o estabelecimento do conceito de manejo sustentável durante a reunião da UNCED (Comissão das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento) no Rio de Janeiro em 1992, o manejo florestal deixou de ser estabelecido apenas na sua dimensão econômica, de maximização da produtividade e minimização de custos. O conceito de manejo florestal sustentável incorpora, igualmente, as dimensões ecológicas e sociais. Ou seja, a manutenção da produtividade florestal é e sempre vai ser o pilar mestre do manejo de florestas plantadas. Todavia, a sustentabilidade deste objetivo primário depende, também, da manutenção de valores ecológicos e sociais, incluindo biodiversidade, solos, água e comunidades locais.

Evidentemente que este novo enfoque de manejo não é tarefa simples e muito menos previsível, o que faz com que o conceito de manejo sustentável seja sempre isso mesmo, ou seja, apenas um conceito, não um fim em si mesmo, mas um ponto de partida, uma jornada, um aprendizado constante (LUDWIG, 2001). Não há e nunca haverá um receituário, assim como não há e nunca poderá haver um especialista. A única regra prática consensual pode ser traduzida assim: para o alcance do manejo florestal sustentável, é mais importante o que fica do que o que é produzido. Ou seja, como ficam o solo, a água, a biodiversidade e as pessoas em função da produção florestal. O monitoramento, nesse sentido, é parte integrante do manejo, como ferramenta para a sua melhoria contínua.

A preocupação para com os efeitos das plantações florestais sobre a água é tema permanente e atual no mundo todo e inúmeros resultados experimentais mostram que o manejo de plantações florestais pode resultar em impactos hidrológicos na escala de microbacias hidrográficas (VERTESSY, 2000; ZHANG et al.,2001; SCOTT, 2005; KANOWSKI, 2005; JACKSON et al., 2005; BROWN et al., 2005; ALMEIDA et al., 2007; BROWN et al., 2007; DYE e VERSFELD, 2007; VAN DIJK e KEENAN, 2007; FARLEY et al., 2007).

As variáveis básicas destes possíveis impactos hidrológicos envolvem pelo menos os seguintes aspectos: conflitos pelo uso da água, saúde da microbacia, impactos a jusante e produtividade do solo. Enquanto os três primeiros aspectos dizem respeito a impactos que se refletem fora dos limites da área de influência direta do manejo, o último, além de também se refletir a jusante, afeta principalmente a própria sustentabilidade econômica do manejo florestal.

No nível atual de conhecimento, a análise destas variáveis pode ser inferida a partir do uso dos seguintes indicadores hidrológicos: balanço hídrico da microbacia, regime hidrológico e pico de vazão, variáveis físicas e químicas da água, perdas de solos (sedimentos em suspensão), biogeoquímica da microbacia e nível do lençol freático.

Os parâmetros de qualidade da água normalmente monitorados são aqueles que reconhecidamente podem estar associados ao manejo florestal. Em condições naturais, a cobertura florestal está, em geral, relacionada com a estabilidade hidrológica da microbacia e, portanto, com água de boa qualidade. Nesse sentido, não haveria o que monitorar. Todavia, as ações de manejo, tais como preparo do solo, plantio, tratos silviculturais e colheita, podem resultar em aumento nas perdas de solo e de nutrientes da microbacia (HOPMANS e BREN, 2007; TETZLAFF et al., 2007). Por outro lado, estes aumentos também podem ocorrer por eventos chuvosos intensos. Em resumo, parâmetros de qualidade da água, nesse sentido, são monitorados para aferir a qualidade das ações de manejo.

Por último, a questão das escalas da sustentabilidade hidrológica é também um aspecto importante que norteia o programa. Conforme ilustrado na Figura 2, as variáveis hidrológicas fundamentais do monitoramento em microbacias podem ter origem em diferentes escalas. Nesse sentido, os efeitos das práticas de manejo são monitorados na escala da Unidade de Manejo Florestal UMF, através de microbacias experimentais nela estabelecidas. Todavia, os resultados medidos nestas microbacias podem estar relacionados a causas originadas nas escalas macro e meso (condições climáticas, estradas mal feitas ou áreas ripárias degradadas, por exemplo) e não às práticas de manejo (CALDER, 2007). Desta forma, é imperativo que os resultados do monitoramento na escala de microbacias experimentais sejam devidamente analisados em confronto com estas outras escalas de efeitos hidrológicos, pois pode muito bem ocorrer que os resultados obtidos no monitoramento sejam devidos a outras causas e não às práticas de manejo.

Escalas da Sustentabilidade Hidrológica
Figura 2
. As escalas da sustentabilidade hidrológica e seus respectivos indicadores

Referências Bibliográficas

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