Lodo de Esgoto tratado (biossólido) em Plantações Florestais

Paulo Henrique Müller da Silva - Engenheiro Florestal - IPEF
Fabio Poggiani – Professor Titular da ESALQ/USP
Atualizado em 25/05/2005

Introdução

Alguns municípios brasileiros têm estações de tratamento de esgoto, onde é gerada grande quantidade de resíduo sólido, cujo destino final deve levar em consideração fatores econômicos, ambientais, sanitários e sociais envolvidos.

O reaproveitamento desse resíduo em plantações florestais como fertilizante e condicionador de solo parece ser uma das opções mais indicadas, pois além de vantagens nos diferentes fatores citados anteriormente, o lodo de esgoto tratado (biossólido) pode trazer benefícios ao plantio florestal com a diminuição da adubação química convencional e o aumento da produtividade.

Área Florestal

É importante ressaltar que o lodo de esgoto urbano deve ser devidamente tratado antes de ser utilizado nas plantações florestais. Nesse tratamento os objetivos principais são a diminuição dos patógenos e do teor de água. Depois de tratado, torna-se um produto rico em matéria orgânica, nitrogênio, fósforo, cálcio e micronutrientes, agregando ainda partículas minerais que podem melhorar as características físicas e químicas do solo.

O uso do lodo em plantações florestais pode ser considerado ainda mais atrativo, se considerarmos que:

1- Os produtos dessas culturas não se destinam à alimentação humana ou animal;
2- As aplicações são realizadas com grandes intervalos de tempo (5 a 7 anos) o que gera baixo impacto sobre o ecossistema;
3- Existem extensas áreas de florestas plantadas disponíveis;
4- As plantações florestais ocupam geralmente solos de baixa fertilidade;
5- A malha de raízes finas absorve de imediato os nutrientes liberados pelo lodo;
6- Facilidade de aplicação nos talhões em qualquer época de desenvolvimento do plantio;
7- Imobilização dos nutrientes na biomassa lenhosa (fitoremediação) e seqüestro de CO2.

Por outro lado, sabe-se que nas grandes cidades industrializadas (por exemplo, São Paulo), o esgoto doméstico chega à estação de tratamento misturado com o esgoto industrial, o qual freqüentemente carrega metais pesados. Esses componentes, quando em níveis elevados, são tóxicos e podem tornar inviável a utilização do lodo nos plantios florestais e nos agroecossistemas de modo geral.

Experimentos na área florestal

Os experimentos têm duas vertentes: a primeira de caráter florestal - diminuir a adubação química convencional mantendo ou incrementando a produtividade das plantações florestais e a segunda, de caráter ambiental e ecológico - destinar esse resíduo, em larga escala, de modo seguro ao ecossistema.

Estudos sobre a utilização do lodo em plantações florestais estão sendo conduzidos desde 1998 sob coordenação do professor Fábio Poggiani, do Departamento de Ciências Florestais da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” e têm apresentado resultados interessantes.

Inicialmente foram implantados dois experimentos na Estação Experimental de Itatinga, pertencente a ESALQ/USP e atualmente existem seis experimentos na Estação Experimental e diversos outros implantados nas empresas florestais: Duratex, Eucatex, International Paper, Ripasa, Suzano e Votorantin Celulose e Papel. Esses experimentos, de modo geral, estão avaliando o melhor modo de aplicação, a dosagem adequada, o crescimento das árvores, a sustentabilidade florestal e os possíveis impactos ambientais.

O projeto envolve pesquisadores da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" (ESALQ) e é desenvolvido em parceria com o Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (IPEF), Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA), Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (SABESP) e empresas florestais.

Nos experimentos implantados na Estação Experimental, foram realizados vários estudos podendo-se destacar:

Estudo 1 - Ciclagem de nutrientes após aplicação de lodo de esgoto (biossólido) sobre latossolo cultivado com Eucalyptus grandis - Autores: Pesquisador Dr. Marcelino Carneiro Guedes e Prof. Dr. Fábio Poggiani

O objetivo do trabalho foi estudar o efeito da utilização do lodo em um povoamento de Eucalyptus grandis tanto na produção de biomassa como na ciclagem de nutrientes. Os resultados mostraram que a aplicação de lodo alterou o desenvolvimento e o estado nutricional dos eucaliptos, bem como os padrões de reciclagem dos nutrientes:

i) A produção de fitomassa arbórea pelos eucaliptos que receberam o lodo foi significativamente maior do que no tratamento testemunha e, em média, maior também do que na fertilização mineral;
ii) A aplicação do lodo propiciou, na fase final da rotação, maiores estoques de nutrientes em todos os compartimentos do ecossistema, obtendo maiores teores de P, Ca e Zn no solo onde biossólido foi aplicado, o que evidencia maior capacidade em manter a sustentabilidade produtiva do ecossistema quando se aplica biossólido.


Tratamento sem aplicação de lodo (7 anos)

Tratamento com aplicação de lodo (7 anos)

Estudo 2 - Influência da aplicação do lodo de esgoto (biossólido) sobre a concentração e o estoque de nutrientes na biomassa do sub-bosque, na serapilheira e no solo de um talhão de E.grandis. - Autores: Eng. Florestal Claudia Irene de Oliveira Rezende e Prof. Dr. Fabio Poggiani

O objetivo do trabalho foi estudar a influência do lodo, 68 meses após sua aplicação, no estoque de nutrientes do sistema “solo- sub-bosque - serapilheira” em parcelas experimentais de Eucalyptus grandis. Os resultados evidenciaram que o lodo aplicado aumentou a fertilidade do solo e a biomassa vegetal do sub-bosque:

i) O lodo aplicado aumentou as concentrações do P, Ca, Zn e o pH no solo, sem aumentar os teores totais dos metais pesados Cu, Ni e Zn;
ii) Na vegetação de sub-bosque foi observado o aumento da biomassa vegetal, das concentrações e dos estoques de N, P, Ca, S e Cu nas gramíneas e de K, Ca, B e Cu nas folhas das dicotiledôneas;
iii) Os teores e os estoques de N, P, Ca e Zn aumentaram na serapilheira acumulada sobre o solo.


Sub-bosque no experimento

Estudo 3 - Efeito da aplicação de lodo de esgoto úmido e seco no crescimento e na ciclagem dos nutrientes em Eucalyptus grandis - Autores: Eng. Florestal Paulo Henrique Müller da Silva e Prof. Dr. Fabio Poggiani

O objetivo do trabalho é verificar a influência de dois tipos diferentes de lodo de esgoto (úmido e seco), aplicados em diferentes doses, no crescimento e na ciclagem dos nutrientes em parcelas experimentais de Eucalyptus grandis. Nos primeiros resultados obtidos foram observados que a aplicação do lodo influenciou de maneira positiva o crescimento do eucalipto, servindo como fonte de nutrientes nessa fase inicial de crescimento.

i) A produção de biomassa pelos eucaliptos que receberam o lodo foi superior a biomassa dos eucaliptos do tratamento testemunha e, em média, maior também do que na fertilização mineral;
ii) A utilização do lodo influenciou nos valores de concentração foliar de alguns nutrientes principalmente do P, Zn e Mn.
iii) As utilizações do lodo úmido ou seco não diferenciam entre si de maneira significativa na influencia no crescimento ou nos valores de concentração foliar dos nutrientes em plantio de eucalipto.


Tratamento sem adubação (6 meses)

Tratamento com aplicação de lodo (6 meses)

Considerações finais

Em geral, a aplicação de lodo de esgoto tratado como adubo organo-mineral em plantios florestais resultou em efeitos positivos sobre a taxa de crescimento, na ciclagem dos nutrientes e na sustentabilidade do ecossistema florestal. O monitoramento de possíveis impactos ecológicos decorrentes da aplicação não apresentou nenhum fato preocupante até o presente momento.


Adubação comercial sem adição de lodo (9 meses)

Adubação comercial com aplicação de lodo (9 meses)



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