Produção de florestas com qualidade: técnicas de plantio

Ricardo Michael de Melo Sixel e Flávia Mariani Gomez
Graduandos em Engenharia Florestal – ESALQ/USP
Atualizado em 02/07/2008

Na área florestal, para a obtenção e manutenção de uma boa produtividade, alguns critérios quanto ao plantio florestal devem ser seguidos, dos quais se destacam práticas de combate a formiga cortadeira, controle de mato competição, preparo de solo, adubação, plantio e irrigação.

Assim, buscando-se adequar a um cronograma operacional para plantios florestais, elaborou-se uma explicação das etapas básicas de implantação que tem como objetivo auxiliar o pequeno produtor na formação de sua floresta.

1. Combate à formiga

As formigas cortadeiras são apontadas como uma das principais pragas florestais. O combate às formigas pode ser dividido em três fases:

a) Inicial: realizado em toda a área a ser plantada. Quando o combate inicial for feito após a limpeza da área, é indicado que se aguarde um período de aproximadamente 60 dias entre a operação de limpeza e o combate;

b) Repasse: operação que visa combater os formigueiros que não foram totalmente extintos e é realizado por volta de 60 dias após o combate inicial, antes do plantio em toda a área; e

c) Monitoramento: realizado durante todo o período de formação e maturação da floresta, prosseguindo após o corte da mesma. Após o plantio, o monitoramento deve ser constante até o primeiro ano de plantio. É indicado que se faça o monitoramento anual, de forma a evitar a proliferação dos formigueiros.

Os formicidas disponíveis no mercado são sob a forma de pó seco, de iscas granuladas e de líquidos termonebuláveis.

As iscas granuladas são as mais utilizadas na área florestal devido a fácil aplicação, baixo custo, alto rendimento em áreas limpas e menor perigo aos aplicadores. Os dois princípios ativos usados para a produção de iscas encontrados no comércio são sulfluramida e fipronil. Estes princípios ativos participam com 0,3 a 0,5% da isca, sendo que o restante é composto de material que funciona como atrativo para as formigas.

A dosagem da isca granulada depende do tamanho do formigueiro. Uma regra prática é aplicar aproximadamente 10 gramas de isca por metro quadrado da superfície de terra solta (maior largura x maior comprimento). A isca é aplicada com dosadores próximo aos olheiros ou dos caminhos formados (10 a 15 cm de distância, ao lado do carreiro).

2. Capina

A mato competição é um dos fatores limitantes ao estabelecimento de florestas no Brasil, afetando o desenvolvimento das culturas florestais através da competição por água, luz e nutrientes.

O combate pode ser realizado de várias maneiras: roçadas manuais, mecânicas e químicas. A escolha do melhor sistema de controle às plantas invasoras dependerá do tamanho da área, da cultura, época de plantio, orçamento disponível, rendimentos operacionais e taxa de colonização, entre outros.

Segundo Toledo (2002) o período de maior incidência de mato competição em plantações de eucalipto ocorre até o 7º mês após o plantio. É nesse período, portanto que se deve ter mais cuidados no controle das plantas invasoras.

O método químico de controle é o mais utilizado (TOLEDO et al., 2003), em razão de seus resultados serem mais rápidos e eficientes, minimizando custos. Para este tipo de controle recomenda-se a aplicação em três fases:

I) Aplicação de herbicida pós-emergente em área total antes do plantio;
II) Aplicação de herbicida pré-emergente nas linhas de plantio; e
III) Aplicação de herbicida pós-emergente após o plantio;

2.1. Aplicação de herbicida pós-emergente em área total antes do plantio

A aplicação de herbicida antes do plantio para o preparo da área pode ser feito aproximadamente 15-25 dias antes do plantio (CHRISTOFFOLETI, 2007). Para esta aplicação, o herbicida glyphosate é o mais usado em plantios comerciais, pois este possui um efetivo controle sobre grande número de espécies invasoras (TUFFI SANTOS, 2006).

Na aplicação em área total são utilizadas barras de aspersão que cobrem grande superfície.


Figura 1 – Equipamento de aplicação de herbicida em área total

2.2. Aplicação de herbicida pré-emergente nas linhas de plantio

Os herbicidas pré-emergentes são produtos usados para controlar o banco de sementes das plantas daninhas depositadas sobre o solo. Sua aplicação é realizada logo após o plantio das mudas, numa faixa de aproximadamente 1 metro na linha de plantio, pois este não possui ação sobre as mudas. Os herbicidas pré-emergentes mais utilizados no meio florestal são o isoxaflutole e o oxyfluorfen (CHRISTOFFOLETI, 2007).

2.3. Aplicação de herbicida pós-emergente após o plantio

A aplicação de pós-emergente após o plantio deverá ser efetuado até o período de ocorrência da mato competição. Nesta fase o herbicida pós-emergente pode ser aplicado nas entrelinhas de plantio (aplicação mecânica), ou nas linhas de plantio (manual). Tomando-se cuidados para não ocorrer deriva às mudas. O número de aplicações depende da intensidade de infestação, sendo normalmente realizado uma ou duas aplicações.

3. Preparo do solo

Atualmente o preparo do solo é realizado com base no conceito de cultivo mínimo, devido a rápida evolução da silvicultura nas décadas de 80 e 90. O preparo do solo tem como objetivo a diminuição da resistência do solo à expansão das raízes e maior aproveitamento da água melhorando a condução e desenvolvimento do sistema radicular.

O cultivo mínimo do solo consiste em revolvê-lo o mínimo necessário, mantendo os resíduos vegetais (da cultura e de plantas invasoras) sobre o solo como cobertura morta. Para plantações florestais, prevê a realização de um preparo localizado apenas na linha ou na cova de plantio. Devido ao amplo espaçamento de plantio, geralmente, 3,0 m entrelinhas, o volume de solo revolvido é bem menor do que aquele realizado para culturas anuais.

Os implementos mais usados em áreas manejadas no sistema de cultivo mínimo são o subsolador (profundidade de trabalho superior a 30 cm), o escarificador (profundidade de trabalho até 30 cm), o coveador mecânico e implementos manuais que são utilizados em áreas muito declivosas (forte ondulada e montanhosa) (GONÇALVES(b) et al., 2002).


Figura 2 - Preparo do solo e fertilização

4. Adubação

A adubação é uma prática que visa suprir as demandas nutricionais das plantas, na busca por maior produção. No Brasil, as maiores limitações nutricionais têm sido observadas quanto ao elemento P.

Contudo, o aumento do número de rotações, leva à demanda por outros nutrientes (BARROS et al., 2000). No caso do eucalipto, entre 70-80% da exigência nutricional das árvores, ocorrem na fase inicial de desenvolvimento da cultura (SANTANA et al., 1999), sendo, portanto uma indicação do período de aplicação dos fertilizantes. No programa de fertilização aqui estabelecido, todo o processo é compreendido pelas seguintes etapas:

I) Calagem: fornecimento de Ca e Mg;
II) Adubação de base: fornecimento de P, N, K, B; e
III) Adubação de cobertura: fornecimento de N, K, B e Zn.

Antes de qualquer tomada de decisão é recomendado que se faça uma análise do solo para avaliar a necessidade de calagem e a adubação mais adequada.

4.1 Calagem

Calagem é uma etapa do preparo do solo para cultivo florestal na qual se aplica calcário com o objetivo de elevar os teores de cálcio e magnésio (GONÇALVES, 2005). Para sua aplicação é indicado que seja feita com antecedência ao plantio (aproximadamente dois meses) e realizada a lanço na superfície do solo.

O calcário é classificado em calcítico, magnesiano ou dolomítico quando apresenta menos de 5% de óxido de magnésio (%MgO), de 5-12% de MgO e acima de 12% de MgO, respectivamente.

Efeitos da calagem:

a) Efeitos físicos: melhoria da estrutura pela granulação das partículas (estrutura, porosidade, permeabilidade, aeração);

b) Efeitos químicos: correção da acidez e aumento da disponibilidade de alguns nutrientes principalmente o Ca e o Mg; e

c) Efeitos biológicos: estímulo ao desenvolvimento da vida microbiana.

4.2. Adubação de base e de cobertura

Para o plantio de áreas florestais, a adubação é realizada em momentos distintos durante a produção da floresta, dividida em 3 ou 4 aplicações – até os 24 meses de plantio (GONÇALVES, 2006). Após este período ocorre o fechamento das copas, iniciando a ciclagem de nutrientes. Porém, as dosagens mudam de acordo com seu desenvolvimento. Na fase inicial é comumente aplicado maiores dosagens de P, e maiores dosagens de N e K somente a partir da segunda aplicação.

- Adubação de base ou de plantio: pode ser realizada junto com a subsolagem e o adubo é aplicado em filete, ou pode ser aplicado em covetas laterais no plantio. Tais covetas devem ficar de 5 a 10 cm de distância da muda e todo o adubo colocado em 1 ou 2 covetas por planta.

- Adubação de cobertura: pode ser parcelada entre 2 a 4 aplicações e realizada de maneira manual com aplicação do adubo na projeção da copa, no período de 3 a 24 meses após o plantio. Realiza-se ainda de maneira mecanizada em um filete contínuo. Nos dois tipos de aplicações, deve-se iniciar a partir de um diâmetro de copa superior a 40 cm (GONÇALVES, 2007).

Mais informações sobre recomendações de adubação em: http://www.ipef.br/silvicultura/adubacao.asp


Figura 3 – Adubação em covetas laterais

5. Plantio

Em áreas onde foi realizada a subsolagem ou coveamento, o plantio pode ser feito por meio de plantadeiras ou “chuchos”. Para o caso de ocorrência de cupim, a prevenção ao ataque é realizada através da imersão das mudas em solução contendo cupinicida antes de serem enviadas para o plantio. A muda deve ser colocada com o coleto ao nível do solo, devendo ser pressionada junto à altura do mesmo para mantê-la firme ao chão e não deixar bolsões de ar. Todas as embalagens, tubete ou saco plástico, devem ser recolhidas e depositadas em locais apropriados.


Figura 4 – Utilização da plantadeira manual


Figura 5 – Imersão das mudas no campo

6. Irrigação

A aplicação de água no solo tem finalidade de fornecer às mudas a umidade necessária ao seu desenvolvimento. A irrigação no campo pode ser realizada quando o plantio se dá em épocas secas, sendo recomendado acima de 3 litros de água por planta (MAGALHÃES et al., 1978).

Como a irrigação é uma prática silvicultural cara, surgiram algumas alternativas como o hidrogel, que retém a água de irrigação por maior período de tempo, disponibilizando-a de maneira gradativa para as plantas, o que resulta na diminuição da mortalidade das mudas. A aplicação mais prática do hidrogel é na cova de plantio e hidratado.

A adição de hidrogéis no solo otimiza a disponibilidade de água, reduz as perdas por percolação e melhora a aeração e drenagem do solo, acelerando o desenvolvimento do sistema radicular e da parte aérea das plantas (GONÇALVES (a), 2002).


Figura 6 – Primeira irrigação do plantio

7. Replantio

O replantio deve ser realizado quando o índice de mortalidade das mudas ultrapassar 5 %, no período de 15 a 30 dias após o plantio. Os mesmos tratos culturais descritos acima para o plantio, devem ser seguidos também para o replantio. O período estipulado para o replantio não deve ser ultrapassado, pois caso ocorra, as mudas transplantadas possivelmente serão sombreadas, prejudicando seu desenvolvimento.

Bibliografia

BERNARDO, S. Manual de irrigação. 6. ed. Viçosa: Editora da Universidade Federal de Viçosa, 1995. 657 p.

CHRISTOFFOLETI, P. J. Manejo de plantas daninhas em florestas. Notas de aulas, 2007.

GONÇALVES, J.L.M.; STAPE,J.L. Conservação e cultivo de solos para plantações florestais. Piracicaba: IPEF, 2000. 427p.

(a) GONÇALVES, A.C.A; AZEVEDO, T.L.F.; BERTONHA, A. Uso de Hidrogel na Agricultura. Revista do Programa de Ciências Agro-Ambientais, Alta Floresta, v.1, n.1, p.23-31, 2002.

(b) GONÇALVES, J.L.M.; STAPE,J.L.; Conservação e cultivo de solos para plantações florestais. Piracicaba: IPEF, 2002. 498p.

GONÇALVES, J.L.M. Recomendações de Adubação para Eucalyptus, Pinus e Espécies Nativas. Documentos Florestais, 2005.

GONÇALVES, J.L.M. Implantação florestal, 2007.

MAGALHÃES, J.G.R.; NASCIMENTO FILHO, M.B.; MORAES, E.J.; FERNANDES, J.C. Plantio de E. camaldulensis e E. grandis com irrigação na cova em solos cerrados. Silvicultura, v.2, n.14, p.315-320, 1978.

TOLEDO, R. E. B. et al. Faixas de controle de plantas daninhas e seus reflexos no crescimento de plantas de eucalipto. Scientia Florestalis, v. 64, p. 78-92, 2003.

TUFFI SANTOS, L.D. Efeitos diretos e indiretos do glyphosate em eucalipto. 2006. 90p. (Tese de Doutorado) Universidade Federal de Viçosa, Viçosa, 2006.

TUFFI SANTOS, D; FERREIRA, F.A.; BARROS, N.F.; SIQUEIRA, C.H.; SANTOS, I.C.; MACHADO, A.F.L. Exsudação radicular do glyphosate por Brachiaria decumbens e seus efeitos em plantas daninhas em eucalipto e na respiração microbiana do solo. Planta daninha, v. 23, n.1, p. 143-152, 2005.

TUFFI SANTOS, L.D.; FERREIRA, F.A.; MEIRA, R.M.S.A.; BARROS, N.F.; FERREIRA, L.R.; MACHADO, A.F.L. Crescimento e morfoanatomia foliar de eucalipto sob efeito de deriva do glyphosate. Planta Daninha, Viçosa-MG, v. 23, n. 1, p. 133-142, 2005.




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