Biocombustível: questão energética, social e ambiental

Cristiane Façanha - Painel Ciência & Cultura
Maio/2004 - Revisado em 13/10/2004

O Brasil tem capacidade para liderar o maior mercado de energia renovável do mundo. Isso porque no país existe matéria prima renovável em abundância para fabricar o biocombustível - combustível de origem vegetal, como cana de açúcar, óleos vegetais e da madeira, derivados de leite, gordura animal, entre outros.

O biocombustível ou combustível biológico é uma alternativa viável para substituição do petróleo com uma série de vantagens, tanto ambientais, como econômicas e sociais. Há um indicativo de que é possível 5% de adição de biocombustível no diesel de petróleo, que alimenta a economia, diminui a importação de petróleo e reduz a poluição.

O uso do petróleo como fonte energética representa uma das maiores causas da poluição do ar, e sua queima contribui para o efeito estufa. A energia renovável é uma alternativa para reduzir o efeito estufa. Além disso, o uso dela faz com que o país diminua a dependência do combustível fóssil, que num futuro muito próximo, dentro de 40 a 50 anos, estará em extinção.

De olho nessa nova tecnologia, o presidente Luís Inácio Lula da Silva, no início deste ano, lançou o Pólo Nacional do Biocombustível (PNB), com sede na Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" (Esalq), em Piracicaba, (SP).

Segundo o secretário de indústria e Comércio de Piracicaba, José Orlando Berto, "a cidade vai se destacar internacionalmente devido à existência de uma escola que tem como mérito a excelência acadêmica e esse pólo só vem somar em todos esses esforços acadêmicos e tecnológicos".

A idéia do Pólo é agregar todas as pesquisas e projetos sobre biocombustível existentes no Brasil. A Esalq terá um banco de dados com todos os projetos e acompanhará o seu desenvolvimento, para que as pesquisas em função de plataformas governamentais possam ser direcionadas para os interesses do país.

O Pólo vai contribuir para que o Brasil tenha maior independência no setor de energia. Isto não favorece só a região de Piracicaba ou o Estado de São Paulo, mas também áreas distantes e mais empobrecidas do país. O diretor da Esalq, José Roberto Posteli Parra, acredita que essa nova tecnologia amenizará inclusive o problema do desemprego. "Este programa, se bem introduzido, com recursos, pode gerar muitos empregos na área rural, e de tecnologias. O número de empregos vai depender do seu volume", salienta.

De acordo com estudos, o biocombustível que se mostra totalmente viável é o álcool, pois já existem tecnologias e experiências em grande escala na área. Em muitos locais já existe a eliminação da queima da cana de açúcar, o que aumenta a produtividade. "Sem a queima da cana, sobra a palhada, que é um componente estratégico em nível de energia. Só a palhada dá mais energia que a própria cana, além de aumentar o número de empregos no processo de colheitas, aumentar o teor de matéria orgânica do solo e reduzir a poluição do ar", argumenta José Otavio Brito, professor da Esalq.

Análises devem ser feitas com o objetivo de calcular a quantidade de matéria prima que tem que ser plantada para não causar desperdício ou falta dela. O pólo terá a função de fazer esse planejamento estratégico de acordo com a demanda do mercado.
Alternativas

A madeira é um elemento importante, e está em terceiro lugar, junto com a cana como recurso energético brasileiro. A Esalq tem várias ações na linha de madeira e transformações para energia, como carvão vegetal ou mesmo na utilização como lenha. Segundo Brito, no Brasil mais da metade da madeira é utilizada como fonte de energia, e 30 milhões de pessoas a usam como única fonte.

A obtenção de combustíveis a partir de óleos vegetais é realidade no país. Um exemplo é o óleo de palmeiras, que resultam na mais alta produção de energia dentre todas as plantas produtoras de óleo. Dentre essas palmeiras, se destaca o óleo de dendê, que é cultivado principalmente nas regiões pobres do nordeste e na região amazônica. Por produzir o ano todo, sem muitos custos e sem a necessidade de adubação nitrogenada, a dendeicultura abre empregos para populações pobres destas regiões.

Existem muitos outros projetos que se apresentam como viáveis, mas que sempre foram feitos em pequena escala. À medida em que se tornarem de grande escala, haverá necessidades de novos estudos para avaliação do custo.

O Brasil tem tecnologia comparável ou superior a de muitos países. Com o pólo instalado e em atividade, o país poderá ser um grande exportador de energia, pois ele tem competência, pesquisas e nível suficiente para ensinar e transferir essa tecnologia para o resto do mundo. "Esta é uma grande vantagem. Nós temos competências, não é necessário importar tecnologia, apenas alguns detalhes", diz Parra.

A Esalq aguarda a assinatura de um convênio com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para iniciar a instalação do Pólo. "Este convênio deve sair nos próximos meses e assim serão definidas metas e estratégias para o desenvolvimento do projeto", conclui Parra.


Calorímetro, instrumento utilizado para medir a quantidade de energia existente nos biocombustíveis


No Brasil, mais da metade da madeira é utilizada para energia




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