Corantes Naturais: Fontes, Aplicações e Potencial para Uso da Madeira

Ticiane Rossi (trossi@esalq.usp.br)
Engenheira Florestal, Mestranda em Recursos Florestais na Esalq/USP
Atualizado em 15 de julho de 2008

O uso de corantes naturais começou há milhares de anos, havendo evidências entre os antigos egípcios, China e índia. No Brasil, os corantes naturais têm importante relação com sua história, a começar pelo nome do país, proveniente da madeira de Pau-brasil (Caesalpinia echinata), importante fonte de corante vermelho no século XVI. Durante grande parte do século XIX, o Brasil também forneceu corante índigo (Figura 1) extraído da planta Indigofera tinctoria, de coloração azul.


Figura 1. Corante natural de índigo usado para tingimento têxtil.
Fonte: http://amaherbal.trustpass.alibaba.com

Até a metade do século XIX, os corantes naturais eram essencialmente obtidos dos reinos animal e vegetal, que ofereciam todos os recursos para sua obtenção. O cultivo de plantas e a criação de animais ou suas coletas junto às fontes naturais, o processamento e a comercialização de materiais corantes deles obtidos (Figura 2), tiveram importantíssimo papel sócio-econômico no passado, em nível mundial. No entanto, com o desenvolvimento do primeiro corante sintético em 1856, os corantes naturais foram rapidamente substituídos, devido ao baixo custo decorrente das economias de escala na produção, da flexibilidade de localização perto dos centros consumidores, homogeneidade da composição e garantia da qualidade.


Figura 2. Corantes naturais e sua comercialização.

Embora a maioria dos corantes sintéticos seja classificada como seguros, os consumidores estão cada vez mais interessados em produtos de origem natural, que causa menores danos à saúde humana e ao meio ambiente. Dessa forma, em busca de atender esse novo nicho de mercado, as indústrias alimentícia, cosmética, papeleira e têxtil têm aumentado o uso de corantes naturais. Atualmente há uma série de produtos, principalmente alimentícios, que já utilizam corantes naturais tais como bebidas, molhos, sopas, maioneses, sorvetes, temperos, massas etc.

Os corantes naturais, em relação aos corantes sintéticos apresentam uma grande vantagem no tratamento de efluentes, que representa um grande problema para a na indústria têxtil. Tradicionalmente, a etapa industrial de tingimento, é uma das que mais utiliza a água em seu processo produtivo, o que gera uma grande quantidade de efluentes, que têm como destino os rios. Cerca de 90 % do consumo de água de toda indústria têxtil se dá no processo de tinturaria. Sendo assim, um grande volume de efluentes é despejado nos rios causando grandes danos ao ambiente. Uma área promissora para o tratamento desses efluentes tem sido a dos métodos de biodegradação. No entanto, os corantes sintéticos não são degradados pelos microorganismos, aumentando ainda mais o interesse sobre os corantes naturais, posto que estes sejam facilmente tratados por métodos de biodegradação.

Em relação ao potencial de mercado dos corantes naturais, estima-se que, para suprir o consumo anual de fibras, necessita-se de 100 milhões de toneladas/ano de corantes naturais. Os rendimentos desses corantes naturais, em relação ao peso seco de matéria-prima, são muito variados sendo que, para conchas de Murex (utilizadas pelos fenícios para produzir corante púrpura) o rendimento é de 0,01 % chegando até 10 % em média, para corantes extraídos a partir de madeira. No entanto, até agora, apenas um número muito reduzido de corantes naturais tem-se revelado comercialmente viável. Assim, a aplicação majoritária destes corantes é para coloração de gêneros alimentícios e cosméticos (Tabela 1) e, mesmo assim, apenas corantes selecionados são aceitos no mercado, devido às rigorosas normas de segurança em relação a dados toxicológicos e farmacológicos.

Tabela 1. Alguns corantes naturais de plantas aceitos na indústria de alimentos e cosméticos.

Cor

Nome comum

Nome científico ou fonte

Parte utilizada

Aplicação

Vermelho

Beterraba

Beta vulgaris

Raízes

Cosméticos e alimentos

Vermelho

Cochonilha

Dactylopius costa

Inseto inteiro

Alimentos

Vermelho

Páprica

Capsincum anuum

Frutos

Alimentos

Laranja

Urucum

Bixa orellana

Sementes

Cosméticos e alimentos

Amarelo

Cúrcuma

Curcuma longa

Rizomas

Cosméticos e alimentos

Verde

Clorofila

Células de cloroplasto

Folhas de diversas plantas

Cosméticos e alimentos

Azul a violeta

Antocianinas

Uvas,framboesa,morango, amora etc

Flores e frutos

Cosméticos e alimentos

Azul

Indigo

Indigofera tinctoria

Indigofera tinctoria

Cosméticos

Violeta

Pau-campeche

Haematoxylum campechianum

Cerne da madeira

Cosméticos

Atualmente, a indústria têxtil é uma das mais afetadas pela concorrência com os produtos da China, o que vêm incentivando o desenvolvimento da indústria brasileira de forma a diferenciar seus produtos através de inovação e busca de novos ingredientes, entre eles os corantes naturais, que agregará valor ao produto final, diferenciando-se dos outros.

Embora haja uma grande quantidade de pigmentos provenientes de fontes minerais e animais, as plantas são fontes importantes para obtenção de corantes e pigmentos, os quais podem ser encontrados em ramos, raízes, folhas, flores, cascas etc.

Uma fonte importante de material natural está presente nos extrativos provenientes da madeira. Estes extrativos podem ser removidos facilmente da madeira, apresentando fácil solubilização em água, ou em solventes orgânicos neutros, como etanol, sendo responsável pelas características peculiares da madeira como sabor, odor e, principalmente, a cor. No sentido de atender e reforçar o apelo ambiental dos corantes no mercado, uma fonte potencial de extrativos de madeira é a utilização dos resíduos do processamento mecânico, devido a sua produção em grande quantidade por todo o Brasil. Por não terem uma disposição final adequada, em geral, estes resíduos causam importantes problemas ambientais. Estima-se que o consumo de madeira nativa em toras seja de 34.000 m³ e considerando que, em média, o aproveitamento é de 50 % no desdobre da madeira, tem-se, portanto aproximadamente 17.000 m³ de resíduos florestais no Brasil.

O estudo de algumas madeiras, notadamente amazônicas, verificou que os extrativos destes resíduos apresentaram grande potencial como corantes naturais para tingimento têxtil em algodão e papel, com características de boa permanência da cor à luz. Foi avaliado também, o efeito da remoção dos extrativos nas características energéticas da madeira, em que se concluiu não haver influência negativa no valor do material para uso como combustível.

Por fim, o crescimento do nicho de mercado que valoriza os produtos naturais incentiva, cada vez mais, a busca por novas fontes de corantes naturais, cuja demanda tem aumentado. Dessa forma, o Brasil destaca-se como um potencial fornecedor destas matérias-primas corantes, mediante a riqueza em biodiversidade e fonte de resíduos de madeira, cujo potencial como corante já foi avaliado. Nesse sentido, há a necessidade de estudos para avaliar o fornecimento de matéria-prima, seu custo e sazonalidade em busca da viabilidade econômica do corante. Não obstante, são informações fundamentais no desenvolvimento de um produto para indústria, a estabilidade do corante, sua fixação, as caracterizações químicas, estudos toxicológicos e farmacológicos. Sendo assim, estudos que contribuam nesse sentido são altamente justificáveis.

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